Fala-se muito sobre usabilidade, tanto no meio on-line quanto em objetos reais. Don Norman, por exemplo, discute em seu livro “The design of everyday things” a usabilidade de diversos itens do dia-a-dia, como maçanetas, interruptores, chaleiras e até grandes áreas de circulação, como hospitais e universidades.
Mas existe um tema relacionado a este que é muito pouco comentado: a construção proposital de espaços físicos “não usáveis” em alguns aspectos. Um bom exemplo disso é descrito nesse post sobre a instalação de dispositivos que visam impedir a prática de skate no Embarcadero em São Francisco.
Outro exemplo mais próximo são as medidas contra sem tetos adotadas em grandes cidades do Brasil, como bancos em que não se pode deitar, fontes cercadas de poças de lama e o paralelepípedos sob viadutos. É claro que não é legal para a cidade ter uma crescente população de rua, mas algo me diz que dificultar a vida dessas pessoas no espaço público não é abordagem mais esperta para o problema.
Antes de gastar dinheiro e energia pensando nestes mecanismos, o governo devia se preocupar em criar espaços destinados à inclusão e em formas de garantir moradia à todos. Até porque esse tipo de medida tem prazo de validade. A imaginação e a necessidade as tornam obsoletas em um piscar de olhos.

Luma
Interessante abordagem. Na minha calçada existe impedimento para carros não estacionarem. Acho que isso faz as pessoas usarem corretamente o espaço, educando de uma maneira forçada. Por assim dizer, o objeto educa a pessoa.
No caso dos sem teto, o espaço físico estaria ocupado incorretamente, acarretando não só a poluição visual como também a destruição de um patrimônio público. Ao invés de colocarem vigias que estariam se expondo, esses objetos impedem a invasão.
O Estado tem sim que dar condições de moradia. Mas e os muros de nossas casas? Estariam colocados incorretamente?
Beijus
Veridiana Serpa
Concordo completamente, parabéns pelo blog, bem interessante…
lulileslie
Oi Luma,
Esses pinos são um exemplo bem legal também. Eles restringem um uso errado do espaço, mas não acho que educam. E como as restrições aos moradores de rua são obstáculos que em princípio não deveriam existir, para isso bastaria educação e menos desigualdade social. É claro, falar é fácil, mas esse tipo de artificio demonstra claramente os calores de uma sociedade, não acha?
Por outro lado, não sei se eu enquadraria os muros nessa mesma descrição. Pra início de conversa existe uma grande diferença entre espaços públicos e privados e os muros podem ter muitas funções além de proteção, como por exemplo, limitar, criar privacidade e decorar.
rodrigobarba
Quem vai falar sobre estas questões da vivacidade das cidades é Jane Jacobs no livro dela Morte e Vida de Grandes Cidades, onde ela questiona as políticas públicas em relação transporte e empreendimentos que acabam com a vida das ruas. Está na minha lista de próximas leituras, assim como o The design of everyday things, mas tem q importar ele =/
lulileslie
Oi Rodrigo,
Legal a dica do livro, vou procurá-lo.
E quanto ao The design of everyday things, ele foi lançado no Brasil recentemente [ http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&ProdTypeId=1&ProdId=1734852&ST=SR ] . Existe uma continuação do livro - Why we love the design of everyday things” - que é ainda melhor que o primeiro, até por ser menos radical, e que anda não saiu por aqui.
bjs,
carol
Petitpois » O avesso da usabilidade - parte 2
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